Em 17 de maio de 2025, à meia-noite, a usina REB Cassino III gerava normalmente no litoral gaúcho, no Conj. Quinta 69 kV. Vento a 6,8 m/s, geração de 5,5 MW. Às 03:00 UTC, a torre anemométrica reportou ao Sistema de Supervisão e Controle do ONS uma velocidade de vento de 5.968 m/s — mais de 21.000 km/h. Mach 17. Velocidade de reentrada orbital.
Não foi um pico isolado. A leitura permaneceu acima de 5.000 m/s pelas 21 horas seguintes, atingindo o máximo de 8.832 m/s às 22:00 UTC — 26 vezes a velocidade do som. A torre anemométrica não mede acima de 75 m/s. Nenhum furacão categoria 5 ultrapassa 90 m/s. O recorde absoluto de rajada já registrado na Terra é de 113 m/s (Mt. Washington, 1934). REB Cassino III reportou quase 80 vezes mais, durante quase um dia inteiro.
O que o ONS fez com esses dados? Nada. O flag de dado inválido permaneceu em zero para todos os 42 registros consecutivos. O sistema aceitou 8.832 m/s como velocidade de vento real, calculou uma geração estimada constante de 22,4 MW a partir dela, e registrou a diferença para a geração verificada (~5 MW, a geração real da turbina) como curtailment de ~17 MW por semi-hora. Ao longo das 21 horas, isso gerou aproximadamente 350 MWh de curtailment fantasma — energia desperdiçada que nunca existiu — em uma única usina, em um único dia.
Noutro caso, em dezembro de 2023, uma usina em Paulino Neves (MA) reportou 343,9 m/s — velocidade do som. No mesmo evento, usinas vizinhas no NE reportaram ventos de -25 m/s (negativo) e sensores congelados em valores fixos por horas. No Sul, o Conj. Santa Vitória do Palmar já acumulou registros de 1.374 m/s e -108 m/s. O Conj. Serra do Seridó chegou a -199 m/s.

Como o ONS Decide o que é Inválido
Para entender por que valores de 8.832 m/s ou 213.460 W/m² passam pelo sistema sem serem filtrados, é preciso entender o critério usado pelo ONS.
A definição oficial consta no Dicionário de Dados do ONS (versão 1.4, abril de 2025) e na Rotina Operacional RO-AO.BR.13 Rev.08:
"O dado é considerado inválido (flag = 1) quando há falha na medida recebida pelo Sistema de Supervisão e Controle do ONS por mais de 6 minutos dentro da semi-hora correspondente."
O critério é puramente de disponibilidade de telemetria SCADA. Não de plausibilidade física. Não de range de valores. O sistema verifica se o sinal chegou — não se faz sentido.
Isso significa:
| O que o flag DETECTA | O que o flag NÃO detecta |
|---|---|
| Sinal de telemetria caiu por >6 min | Vento de 8.832 m/s (Mach 26) |
| Sensor congelou por >6 min consecutivos | Vento negativo (-199 m/s) |
| Dropout total de comunicação | Irradiância solar à meia-noite |
| Irradiância 157x acima da constante solar | |
| Integer overflow (2,1 bilhões) |
A NT DOP 0022/2025 e a EPE-DEE-NT-096/2022 confirmam que dados congelados por mais de 6 minutos consecutivos também são tratados como inválidos — o que explica por que sensores travados em valores fixos (como 11,875 m/s repetido por horas, ou 3,062 m/s congelado em um conjunto no NE) foram corretamente flagados. Mas REB Cassino III a 8.832 m/s, como o valor mudava entre semi-horas e o sinal SCADA estava estável, passou pelo filtro. Os 42 registros consecutivos acima de 5.000 m/s receberam flag=0.
A Escala do Problema: 86 Milhões de Registros Sob Suspeita
Analisamos 71,9 milhões de registros eólicos e 14,4 milhões de registros solares dos datasets públicos do ONS (2021-2026). O resultado é alarmante.
Eólica: Vento Impossível
| Anomalia | Registros | Não flagados (flag=0) |
|---|---|---|
| Vento > 25 m/s (acima do cut-out) | 112.191 | 74.843 (67%) |
| Vento > 50 m/s (impossível) | 96.339 | 52.797 (55%) |
| Vento > 100 m/s (absurdo) | ~15.000 | 14.909 (99%) |
| Vento negativo | 12.064 | 287 |
| Total anômalos | ~122.000 | ~75.000 (61%) |
O valor máximo registrado é 8,03 x 10²⁶ m/s — um número tão absurdo que ultrapassa a velocidade da luz por 18 ordens de grandeza. Trata-se de corrupção de ponto flutuante. O valor mínimo é -2.147.219.947 m/s — reconhecível como overflow de inteiro de 32 bits (~2³¹), um artefato clássico de falha de conversão de tipo de dado.

Os 10 conjuntos mais afetados concentram a maioria dos outliers. O Conj. Paulino Neves lidera com 44.467 registros anômalos e máximo de 343,9 m/s. O Conj. Santa Vitória do Palmar registrou 1.374,5 m/s (Mach 4) e -108,2 m/s. O Conj. Serra do Seridó, -199,1 m/s. O Conj. Quinta 69 kV, com a usina REB Cassino III, sustentou leituras acima de 7.000 m/s durante 24 horas seguidas em maio de 2025.
Solar: Sol à Meia-Noite
A irradiância solar apresenta um padrão de anomalia distinto e igualmente sistemático.
| Anomalia | Registros | Não flagados (flag=0) |
|---|---|---|
| Irradiância > 0 entre 22h e 04h BRT | 969.199 | 895.854 (92%) |
| Irradiância > 100 W/m² à noite (22h-04h) | — | 161.263 |
| Irradiância > constante solar (1.361 W/m²) | 42.430 | ~14.631 |
| Irradiância negativa | 3.069 | — |
| Irradiância > 5.000 W/m² | ~50 | maioria flag=0 |
O valor máximo registrado é 213.459,9 W/m² na usina Brígida 2, em 6 de fevereiro de 2025, às 11h (BRT). Para referência, a constante solar — máximo teórico de irradiância no topo da atmosfera terrestre — é de 1.361 W/m². O valor registrado é 157 vezes maior. A usina Lavras 2 registrou 123.312 W/m² às 00:30 da madrugada.

O gráfico de irradiância anômala por hora do dia revela um padrão perturbador. Entre 06h e 18h (BRT), zero anomalias — sensores funcionando normalmente durante o dia. Mas a partir das 19h, surgem registros de irradiância alta. Entre 21h e 04h, o número se estabiliza em ~25.000 registros por hora — um plateau constante que sugere um grupo fixo de sensores com offset permanente ou falha de calibração noturna. Esses registros não são flagados porque o sinal SCADA está estável — o piranômetro está enviando dados, apenas dados errados.
O Curtailment que Nunca Existiu
Quando uma torre anemométrica reporta 8.832 m/s com flag=0, o ONS calcula a geração estimada a partir da curva de produtividade (a relação vento-potência calibrada para aquela usina). A curva, tipicamente construída com dados de 0-25 m/s, não tem comportamento definido para valores aberrantes. O resultado é uma estimativa de geração constante no teto (22,4 MW no caso de REB Cassino III) enquanto a turbina real gera apenas 5 MW. A diferença vira "curtailment".
Quantificamos esse curtailment fantasma — energia contabilizada como desperdiçada mas que nunca foi possível gerar:
| Fonte | Registros anômalos | Não flagados (flag=0) | Curtailment fantasma |
|---|---|---|---|
| Eólica (vento >25 ou <0 m/s) | 186.408 | 75.130 (40%) | 426.253 MWh |
| Solar (irrad noturna >100, >1361, ou <0) | 215.186 | 168.928 (79%) | 35.547 MWh |
| Total | 401.594 | 244.058 | ~462 GWh |

462 GWh de curtailment fantasma em 5 anos. A um PLD médio de R$ 100/MWh, isso representa ~R$ 46 milhões em perdas contabilizadas que não existiram. O número parece modesto frente ao curtailment total do NE (~53 TWh acumulados), representando menos de 1%. Mas a distorção não é uniforme — concentra-se em poucos conjuntos e em períodos específicos, inflando as métricas exatamente das usinas mais afetadas por falhas de sensor. Para um gerador individual como Paulino Neves, os 44.467 registros anômalos podem distorcer significativamente seus números de ressarcimento.
Note-se que a solar tem a maior taxa de não-detecção: 79% dos registros anômalos passam pelo filtro do ONS (vs 40% na eólica), porque irradiância noturna — o maior volume de anomalias solares — é um dado que o piranômetro envia estavelmente, apenas com offset.
Há também o efeito inverso: geração invisível. Quando o flag=1 e a estimativa é zerada, mas a turbina está de fato gerando (caso documentado de usinas no NE gerando 40+ MW com flag=1 e est=0), essa geração real desaparece do cálculo. Quantificamos 288.327 MWh de geração verificada que o ONS desconsiderou por falha de telemetria — energia real que existiu mas não entrou na referência.
O Gap: O Que Falta no Sistema de Validação

O sistema de flagging do ONS foi desenhado para uma era de usinas hidrelétricas e térmicas, onde o dado de supervisão crítico era a disponibilidade do sinal — se a usina estava se comunicando. Para renováveis, onde a variável meteorológica é a base do cálculo de curtailment, a qualidade do valor é tão importante quanto a presença do sinal.
Cinco testes triviais resolveriam a grande maioria dos problemas:
| Teste | Implementação | Detectaria |
|---|---|---|
| Vento: range [0, 40] m/s | WHERE val_vento NOT BETWEEN 0 AND 40 | Negativos, overflow, absurdos |
| Irradiância: range [0, 1.500] W/m² | WHERE val_irrad NOT BETWEEN 0 AND 1500 | Acima da constante solar |
| Irradiância noturna = 0 | WHERE hora_brt >= 21 OR hora_brt <= 5 AND val_irrad > 10 | 895K registros fantasma |
| Delta entre semi-horas < 15 m/s | WHERE abs(vento_t - vento_t1) > 15 | Saltos impossíveis |
| Variância zero > 1h | Desvio padrão móvel = 0 por >2 períodos | Sensores congelados em valores plausíveis |
Nenhum desses testes requer infraestrutura adicional. São filtros SQL triviais aplicáveis na camada de ingestão. O fato de não existirem em 2026, com mais de 2.000 usinas renováveis reportando dados semi-horários, é um gap de governança de dados que distorce silenciosamente as métricas oficiais de curtailment.
As Fontes Regulatórias
O framework normativo já prevê, ao menos em parte, a substituição de dados inválidos:
- RO-AO.BR.13 Rev.08, item 5.2.2.6: Agentes podem solicitar, via aplicativo SAGER, a substituição de dados de velocidade de vento ou irradiância considerados inválidos. Os dados substitutos devem corresponder fielmente ao valor real observado no momento do evento.
- Submódulo 2.4: Define a construção da curva de produtividade (vento-potência) a partir de 1 ano de dados medidos. Mas não especifica filtros de qualidade para os dados que alimentam a curva.
- REN ANEEL 1.030/2022 e 1.073/2023: Estabelecem o framework para constrained-off. A precisão do cálculo depende integralmente da qualidade dos dados meteorológicos.
A Lei 15.269/2025, que estabelece direito a ressarcimento por restrição de rede (REL), torna a acurácia desses dados ainda mais crítica. Se curtailment fantasma infla os números de perda de um gerador, o ressarcimento será calculado sobre energia que nunca existiu. Se geração invisível os reduz, o gerador perde ressarcimento a que teria direito.
Conclusão: Confiança nos Dados é o Alicerce
O sistema elétrico brasileiro investiu bilhões em infraestrutura de geração e transmissão renovável. Mas os dados que medem o desempenho desse sistema — e que determinam compensações financeiras, decisões de investimento e políticas regulatórias — passam por um filtro de qualidade binário: o sinal chegou ou não. Não importa se o sinal diz que o vento está a 8.832 m/s ou que o sol brilha à meia-noite.
O gap não é tecnológico — os testes necessários são triviais. O gap é de governança. E enquanto persistir, todo número de curtailment carrega uma margem de erro silenciosa que ninguém quantificou. Até agora.