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O ONS opera o SIN com modelos com décadas de desenvolvimento, equipes dedicadas e acesso a dados proprietários. A BrazilGrid é uma plataforma com dados públicos, ClickHouse local e modelos open-source. Em três frentes distintas de previsão, os dados abertos entregaram resultados superiores. A comparação revela algo mais profundo que uma competição técnica: ela expõe por que o maior sistema elétrico da América Latina ainda programa zero curtailment em dias com 25 GWh de desperdício real.

Frente 1: Previsão de Carga — 3 de 4 Subsistemas

O ONS combina cinco modelos de previsão de carga (MLP, RBF, ESN e variantes univariadas e multivariadas) com pesos lineares otimizados. A BrazilGrid implementou uma abordagem diferente: tomou os cinco modelos do ONS como input e treinou um XGBoost para aprender os padrões de erro de cada modelo.

BrazilGrid vs ONS erro por subsistema
BrazilGrid vs ONS erro por subsistema

Resultado no período de teste:

SubsistemaMAE ONS (MW)MAE BG (MW)Melhoria
NE636581-8,6%
SE/CO1.4321.403-2,0%
S804778-3,3%
N328333+1,5%

Em 3 de 4 subsistemas, o stacking BrazilGrid supera a combinação linear do ONS. O NE — exatamente o subsistema com maior curtailment, onde a precisão de carga tem maior impacto econômico — tem a maior melhoria: 8,6%. O subsistema Sul melhora 3,3%. O Norte, único onde o BG perde, tem o menor erro absoluto e menor impacto sobre curtailment.

Stacking model detalhamento NE
Stacking model detalhamento NE

Por que funciona? Pesos lineares fixos, por construção, não capturam interações entre modelos nem vieses que variam sazonalmente. Um meta-modelo não-linear aprende quando o modelo de temperatura do ONS está sistematicamente errado (NE tem temperatura estável de ~27°C o ano inteiro — a correlação temperatura-carga no NE é rho de apenas 0,31, contra 0,64 no SECO). Para o Nordeste, variáveis como MMGD distribuído — invisível nos modelos ONS — importam mais que temperatura.

Frente 2: Preditor D+1 de Curtailment

A cascata de modelos do ONS — NEWAVE, DECOMP, DESSEM — é cega para 74% do desperdício real. Em dias com 25 GWh de curtailment realizado, o DESSEM programa zero curtailment eólico no NE. A BrazilGrid construiu o primeiro preditor quantitativo público D+1 de curtailment do Brasil — e a descoberta mais importante emergiu da abordagem mais simples.

O modelo naive de persistência — "o curtailment de amanhã será igual ao de hoje" — atinge R² de 0,494 e MAE de 41,7 GWh por dia. Em séries temporais com alta autocorrelação, copiar o dia anterior é difícil de superar. Um XGBoost direto com 22 features lagged, treinado em 580 dias, perdeu para a persistência: MAE de 44,2 GWh.

A solução vencedora combina os dois mundos: persistência como base, XGBoost para corrigir os desvios. Em vez de prever o nível absoluto de curtailment, o modelo aprende quando a persistência erra para cima e quando erra para baixo.

ModeloMAE (GWh/dia)
Persistência41,70,57
XGBoost direto44,20,47
Persistência + Correção35,50,70

Melhoria de 14,9% no MAE e +23 pontos de R² sobre a persistência. O ganho não é modesto: em curtailment de R$ 134/MWh médio, cada GWh de erro de previsão representa R$ 134 mil de incerteza de precificação por dia.

A feature mais importante para a correção? O dia da semana (importância de 0,177). Fins de semana têm 44% mais curtailment por dia que dias úteis — padrão estrutural que a persistência pura ignora porque copia apenas o dia anterior, sem reconhecer o ciclo semanal.

A autocorrelação lag-1 do curtailment cresceu de 0,63 em 2024 para 0,75 em 2025, e o período de decorrelação dobrou de dois para quatro dias. O curtailment está transitando de picos intermitentes para um fenômeno baseload — simultaneamente uma boa notícia para previsão (mais previsível) e má notícia para o sistema (mais estrutural, não sazonal).

Frente 3: O Paradoxo da Persistência do CMO

O Custo Marginal de Operação do Nordeste tem autocorrelação lag-1 de 0,916 — muito superior ao curtailment (0,750). Por lógica, a persistência deveria funcionar ainda melhor para o CMO. Mas o modelo de persistência pura atinge R² de apenas 0,314 para o CMO, contra 0,494 para o curtailment.

Persistência CMO autocorrelação
Persistência CMO autocorrelação

O paradoxo se resolve quando se identifica o mecanismo: curtailment é uma variável "gentil" — sobe e desce gradualmente com ventos e irradiância. CMO é uma variável de otimização que salta de R$ 83 para R$ 700/MWh em questão de dias quando a cadeia NEWAVE-DECOMP-DESSEM recalibra diante de condições hidrológicas. O recorde de R$ 4.871/MWh em 4 de fevereiro de 2026 demonstra a violência dessas transições.

Alta autocorrelação reflete regimes persistentes (semanas de CMO baixo, semanas de CMO alto). Baixa precisão de persistência reflete as transições entre regimes — imprevisíveis com os dados de ontem.

CMO por subsistema timeline
CMO por subsistema timeline

O modelo híbrido com 35 features (CMO multi-subsistema, curtailment, carga, geração, EAR, intercâmbio, calendário) atingiu:

ModeloMAE (R$/MWh)vs. Persistência
Persistência0,31455,65
XGBoost direto0,50650,72-8,9%
Persistência + XGBoost0,47549,16-11,7%
Paradoxo CMO vs curtailment
Paradoxo CMO vs curtailment

A redução de 11,7% no erro médio (de R$ 55,65 para R$ 49,16/MWh) representa R$ 694 mil por dia em melhor precificação, aplicada ao curtailment diário de ~107 GWh. Para operadores de BESS dependentes de arbitragem merchant, a implicação é direta: com MAE de R$ 49/MWh, a margem de erro em ciclos de carga/descarga é alta o suficiente para tornar o LRCAP — e não a arbitragem pura — a única base econômica viável.

O Que Isso Diz Sobre o Sistema

Por que dados públicos e modelos open-source superam modelos com décadas de investimento institucional em três frentes simultâneas?

O ONS otimiza para confiabilidade, não para precisão de previsão. O conservadorismo tem custo: R$ 5,2 bilhões em curtailment não planejado em 2025. Modelos legados têm inércia institucional — o DECOMP roda há trinta anos, o NEWAVE modela renováveis como "eólica equivalente", e o solar mal existe no modelo semanal. Atualizar esses modelos requer mudança institucional, não apenas técnica.

Para geradores renováveis, a implicação é concreta: seus ativos estão sendo avaliados com modelos que sistematicamente subestimam o curtailment real em 74%. Para investidores, o risco não está nos modelos da planilha de due diligence — está nos modelos do operador. Para reguladores, se o curtailment é 74% surpresa e a classificação ENE/CNF tem componente calendário, a pergunta sobre quem arca com R$ 5 bilhões anuais não tem resposta simples.

O ONS criou o GT Curtailment em 2025 e está revisando modelos de previsão de renováveis. O gap será fechado. A questão é quanto custará até lá.

BrazilGrid ONS D+1 previsão carga ML